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Michel Foucault   Em Defesa da Sociedade        Curso no College de
France               (1975-1976)             Edi9GO estabelecida, no
ambito      da Associa9iio para 0 Centro Michel Foucault, sob a dire9GO
de Franfois Ewald e Alessandro Fontana,        por Mauro Bertani e
Alessandro Fontana                      Tradw;ao              MARIA
ERMANTlNA GALVAo             Martins Fontes                   sao Paulo
200S                  ESla obra [oi publicada originalm~nt~ I'm fi:onch
c:m ~ Ift;lo                   lL FAUT Dt:FENDRE LA SOCIETE par Edlllon,
" el ;ao de Les mots et les choses. Une archeologie des sciences
dizer: pois bern, continuemos, acurnulemos. Afinal de con- humaines
(Paris, Gallimard, 1966), a prop6sito do conceito de episteme e do esta-
tas, ainda nao chegou 0 momento em que corremos 0 risco tuto da
descontinuidade. A todas as criticas, Foucault respondera com uma serie
de ser colonizados. Eu lhes dizia agora ha pouco que esses de precisC>es
te6ricas e metodo16gicas (notadamente "Reponse aune question", Esprit,
maio de 1968, pp. 850-74, e "Reponse au Cercle d'epistemologie",
fragmentos geneal6gicos talvez corram 0 risco de ser recodi- Cahiers
pour I'analyse, 9, 1968, pp. 9-40; in Dits et ecrits, I, no~ 58 e 59),
reta-   ficados; mas poderiamos, afinal de contas, lan,ar 0 desafio
mados mais tarde em L 'archeologie du savoir, Paris, Gallimard, 1969. e
dizer: "Tentem entao!" Poderiamos dizer, por exemplo: 18
EM DEFESA DA SOCIEDADE    AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976
19 desde 0 tempo em que a antipsiquiatria ou a genealogia das        por
um tipo de coroamento teorico que as unificaria -, mas institui,oes
psiquiatricas foram empreendidas - faz bem           tentar, nos cursos
seguintes, e por certo ja este anD, precisar uns quinze anos agora - por
acaso apareceu urn s6 marxis-         ou delinear 0 que esta em jogo
nesse por em oposi,ao, ta, urn so psicanalista, urn so psiquiatra para
refazer isso em   nesse por em luta, nesse por em insurrei,ao os saberes
con- seus proprios termos, e para mostrar que essas genealogias
tra a institui,ao e os efeitos de saber e de poder do discurso eram
falsas, mal elaboradas, mal articuladas, mal funda-          cientifico.
mentadas? De fato, as coisas sao tais que esses fragmentos
o que esta em jogo em todas essas genealogias, voces de genealogia que
foram feitos continuam ai, cercados de          sabem, mal tenho
necessidade de precisar, e isto: 0 que e urn silencio prudente. 0 maximo
que lhes opoem sao propo-         esse poder, cuja irrup,ao, cuja fOf9a,
cuja contundencia, cujo si,oes como as que acabamos de ouvir
recentemente na              absurdo apareceram concretamente no
decorrer destes ulti- boca, acho eu, do Sr. Juquin': "Tudo isso e muito
simpatico. mos quarenta anos, ao mesmo tempo na linha de desmoro- Mas
ainda assim a psiquiatria sovietica e a primeira do           namento do
nazismo e na linha de recuo do stalinismo? 0 mundo." Eu ditia: "Claro, a
psiquiatria sovi6tica, 0 senhor       que e 0 poder? Ou melhor - porque
a pergunta: "0 que e 0 tem razao, e a primeira do mundo, e e
precisamente isso           poder?" seria justamente uma questao teorica
que coroaria  que the reprovam." 0 silencio, ou melhor, a prudencia com
o conjunto, 0 que eu nao quero -, 0 que esta em jogo e de- que as
teorias unitanas evitam a genealogia dos saberes tal-      terminar
quais sao, em seus mecanismos, em seliS efeitos,  vez fosse, pois, uma
razao para continuar. Poderiamos, em        em suas rela,oes, esses
diferentes dispositivos de poder que  todo caso, multiplicar assim os
fragmentos genealogicos          se exercem, em niveis diferentes da
sociedade, em campos  como outras tantas armadilhas, questOes, desafios,
como          e com extensoes tao variadas. Grosso modo, acho que 0 que
voces quiserem. Mas, sem duvida, e otimista demais, a par-       esta em
jogo em tudo isso e 0 seguinte: a analise do poder,  tir do momenta em
que se trata, afinal de contas, de urna        ou a analise dos poderes,
pode, de urna maneira ou de outra,  batalha - de urna batalha dos
saberes contra os efeitos de       ser deduzida da economia?  poder do
discurso cientifico -, tomar 0 silencio do adversa-          Eis por que
formulo esta questao, e eis 0 que quero  rio como prova de que the
metemos medo. 0 silencio do            dizer com isso. Nao quero de modo
algum suprimir diferen-  adversario - [e] e este urn principio
metodologico ou urn        as inumeniveis, gigantescas, mas, apesar e
atraves dessas  principio tatico que sempre se deve ter em mente -
talvez        diferen,as, parece-me que Ita um certo ponto em comum
seja, da mesma forma, 0 sinal de que nao the metemos             entre a
concep,ao juridica e, digamos, liberal do poder poli-  medo algum. E
devemos agir, acho eu, como se justamente          tico - a que
encontramos nos filosofos do seculo XVIII - e  nao the metessemos medo.
E, portanto, 0 problema nao e           tambem a concep,ao marxista ou,
em todo caso, uma certa   dar um solo teorico continuo e solido a todas
as genealogias    concep,ao corrente que vale como sendo a concep,ao do
dispersas - nao quero de modo algum Ihes dar, Ihes sobre-
marxismo. Esse ponto comum seria aquilo que eu chamaria
de "economismo" na teoria do poder. E, com isso, quero di-
zer 0 seguinte: no caso da teoria juridica classica do poder,       7.
Na epoca, deputado do Partido Comunista Frances. o poder e considerado
urn direito do qual se seria possuidor 20
EM DEFESA DA SOC/EDADE        AULA DE 7 DEJANE/RODE /976
21 como de wn bern, e que se poderia, em conseqiiencia, trans-      mia?
Esta destinado a faze-Ia funcionar, a solidificar, a man- ferir ou
alienar, de urna forma total ou parcial, mediante urn   ter, a
reconduzir relac;5es que sao caracteristicas dessa eco- ato juridico ou
urn ato fundador de direito - pouco importa,     nomia e essenciais ao
seu funcionamento? Segunda questaa: por ora - que seria da ordem da
cessao ou do contrato. 0         o poder e modelado com base na
mercadoria? 0 poder e poder e aquele, concreto, que todo individuo detem
e que         algo que se possui, que se adquire, que se cede por
contra- viria a ceder, total ou parcialmente, para constituir urn po-
to ou por for,a, que se aliena ou se recupera, que circula, que der,
urna soberania pOlitica. A constitui,ao do poder politi-    irriga esta
regiao, que evita aquela? Ou entao, e preciso, ao co se faz, portanto,
nessa serie, nesse conjunto tearieD a que   contrario, para analisa-lo,
tentar lan,ar mao de instrurnen- me refiro, com base no modelo de urna
opera,ao juridica          tos diferentes, mesmo que as relay6es de
poder sejam pro- que seria da ordem da troca contratua!. Analogia, por
con-       fundamente intricadas nas e com as re!a,6es economicas,
seguinte, manifesta, e que corre ao longo de todas essas teo-
mesmo que efetivamente as relay6es de poder constituam rias, entre 0
poder e os bens, 0 poder e a riqueza.
sempre uma especie de feixe ou de anel com as relay6es       No outro
caso, claro, eu penso na concepyao marxista
economicas? E, nesse casa, a indissociabilidade entre a eco- geral do
poder: nada disso, e evidente. Mas voces tern nessa
nomia e 0 politico nao seria da ordem da subordinayao fun- concepyao
marxista algo diferente, que se poderia chamar
cional, nem tampouco da ordem da isomorfia formal, mas de
"funcionalidade economica" do poder. "Funcionalidade
de uma outra ordem que se trataria precisamente de revelar. economica",
na medida em que 0 pape! essencial do poder seria manter rela,6es de
produyao e, ao mesmo tempo, re-               Para fazer uma analise nao
economica do poder, de que, conduzir urna dominayao de classe que 0
desenvolvimento          atualmente, dispomos? Acho que se pode dizer
que dispo- e as modalidades pr6prias da apropria,ao das foryas produ-
mos realmente de muito pouca coisa. Dispomos, primeiro, da tivas
tornaram possive!. Neste caso, 0 poder politico encon-     afirma,ao de
que 0 poder nao se da, nem se troca, nem se traria na economia sua razao
de ser hist6rica. Em linbas ge-     retorna, mas que ele se exerce e s6
existe em ata. Dispomos rais, se preferirem, nurn caso, tem-se urn poder
politico que    igualmente desta outra afirma,ao, de que 0 poder nao e
pri- encontraria, no procedimento da troca, na economia da cir-
meiramente manutenyao e reconduyao das relay6es econo- culayao dos bens,
seu modelo formal; e, no outro caso, 0         micas, mas, em si mesma,
primariamente, uma rela~ao de poder politico teria na economia sua razao
de ser hist6rica,     for,a. Algumas quest6es, ou melhor, duas quest6es:
se 0 po- e 0 principio de sua forma concreta e de seu funcionamento
der se exerce, 0 que e esse exercicio? Em que consiste? Qual atua!'
e sua med.nica? Temos aqui algo que eu diria era uma res-       o
problema que e 0 mobil das pesquisas de que estou        posta-ocasiao,
enfim, urna resposta imediata, que me pare-  falando pode, creio eu, ser
decomposto da seguinte maneira. ce descartada finalmente pelo fato
concreto de muitas ana-  Primeiramente: 0 poder esUi sempre nurna
posi,ao secunda-       lises atuais: 0 poder e essencialmente 0 que
reprime. E 0  ria em relayao it economia? E sempre finalizado e como
que reprime a natureza, os instintos, uma classe, individuos.  que
funcionalizado pela economia? 0 poder tern essencial-       E, quando,
nO discurso contemporaneo, encontramos essa  mente como razao de ser e
como finalidade servir it econo-      defini,ao repisada do poder como 0
que reprime, afinal de 22                                             EM
DEFESA DA SOC1EDADE                   AULA DE 7 DEJANE1RO DE 1976
23 contas, 0 discurso contemporaneo nao faz uma invenl;ao.
como ponto de ancoragem uma certa rela,ao de for,a esta- Hegel fora 0
primeiro a dizer, depois Freud, depois Reich'. beleclda em dado momenta,
historicamente precisavel, na Em todo caso, esse orgao de repressao e,
no vocabulario de                               guerra e pela guerra. E,
se e verdade que 0 poder politico para hoje, 0 qualificativo quase
homerico do poder. Entao, a ana-                             a guerra,
faz remar ou tenta fazer reinar uma paz na socie- lise do poder nao deve
ser antes de mais nada, e essencial-                              dade
civil, nao e de modo algum para suspender os efeitos mente, a analise
dos mecanismos de repressao?
da guerra ou para neutralizar 0 desequilibrio que se mani-      Em
segundo lugar - segunda resposta-ocasiao, se qui-
fe,stou na batalha final da guerra. 0 poder pOlitico, nessa hi- serem -,
se 0 poder e mesmo, em si, emprego e manifestac;ao
potese, tena como fun,ao reinserir perpetuamente essa re- de uma rela,ao
de for,a, em vez de analisa-lo em termos de
la,ao de for,a, mediante uma especie de guerra silenciosa cessao,
contrato, alienac;ao, em vez mesma de analisa-Io em
e de reinseri-la nas institui,oes, nas desigualdades econ6: termos
funcionais de recondu,ao das rela,oes de produ,ao,
mIcas, na lmguagem, ate nos corpos de uns e de outros. Seria nao se deve
analisa-lo antes e acima de tudo em termos de
pois, 0 primeiro sentido a dar a esta inversao do aforismo d~ combate,
de enfrentamento ou de guerra? Teriamos, pois,
Clausewitz: a politica e a guerra continuada por outros meios' diante da
primeira hipotese - que e: 0 mecanismo do poder
isto e, a politica e a san,ao e a recondu,ao do desequilibri~ e,
fundamental e essencialmente, a repressao -, uma segun-
das. for,as .manifestado na guerra. E a inversao dessa propo- da
hipotese que seria: 0 poder e a guerra, e a guerra conti-
Sl,ao slgmflcana outra cOlsa tambem, a saber: no interior nuada por
Qutros meios. E, oeste momento, inverteriamos a
d~ssa "paz civil", as lutas politicas, os enfrentamentos a pro-
proposi,ao de Clausewitz' e diriamos que a politica e a guer-
pOSHo do poder, com 0 poder, pelo poder, as modifica,oes ra continuada
por outros meios. 0 que significaria tres coi-
das rela,oes de for,a - acentua,oes de urn lado, reviravol- sas.
Primeiro isto: que as rela,oes de poder, tais como fun-
tas, etc. -, tudo isso, num sistema pOlitico, deveria ser inter- cionam
numa sociedade como a nossa, tern essencialmente
pretado apenas com,o as continua,oes da guerra. E seria para
declfrar como eplsodlOS, fragmenta,oes, deslocamentos da
propria guerra. Sempre se escreveria a historia dessa mes-         8.
Cf. G. w. F. Hegel, Grundlinien der Philosophie des Rechts, Berlim,
rna guerra, mesmo quando se escrevesse a historia da paz e 1821, 
182-340 (trad. fr.: Principes de fa philosophie du droit, Paris, Vrin,
de suas institui,oes. 1975); S. Freud, "Das Unbewussten", in
Internationale Zeitschriftfiir iirtzli- che Psychoanalyse, vol. 3 (4) e
(5),1915, e Die ZukunJt einer Illusion,
A inversao do aforismo de Clausewitz significaria ainda
LeipziglViena/Zurique, Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1927
uma terceira coisa: a decisao final so pode vir da guerra, ou (trad.
fr.: L 'Qvenir d'une illusion, Paris, Denoel, 1932; reed. Paris, PUF,
1995). seJa, de uma prova de for,a em que as armas, finalmente 1\0
tocante a Reich, cf. supra, nota 2. deverao ser juizes. 0 fim do
politico seria a derradeira bata:         9. Michel Foucault alude a
formular;ao bern conhecida do principio de         lha, isto e, a
derradeira batalha suspenderia afinal, e afinal Carl von Clausewitz
(Vorn Kriege, !iv.I, cap. I,  XXIV, in Hinterlassene Werke, Bd. 1-2-3,
Berlim, 1832; trad. fro De fa guerre, Paris, Ed. de Minuit, 1955),
somente, 0 exercicio do poder como guerra continuada. segundo a qual: "A
guerra nao e mais que a continuar;ao da politica por outros
Voces estao venda, portanto, que, a partir do momenta meios"; ela "nao e
somente urn ato politico, mas urn verdadeiro instrumento           em
que tentamos libertar-nos dos esquemas econ6micos para da politica, seu
prosseguimento por outros meios" (ibid., p. 28). Ver tambem
anahsar 0 poder, encontramo-nos imediatamente em face de !iv. II, cap.
III,  III e liv. VIII, cap. VI.
duas hipoteses maci,as: de uma parte, 0 mecanismo do poder 24
EM DEFESA DA SOCIEDADE       AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976
25 seria a repressao - hipotese que, se voces concordarem,
Eevidente que tudo 0 que eu Ihes disse ao lange dos anos chamarei
comodamente hipotese de Reich - e, em segundo            anteriores se
insere do lado do esquema luta-repressao. Foi lugar, 0 fundamento da
rela,ao de poder e 0 enfrentamento         este esquema que, de fato, eu
tentei aplicar. Ora, it medida que belicoso das for,as - hipotese que
chamarei, tambem aqui          eu 0 aplicava, fui levado mesmo assim a
reconsidera-Io; ao por comodidade, hipotese de Nietzsche. Essas duas
hipote-         mesmo tempo, claro, porque numa por,ao de pontos ele
ainda ses DaO sao inconciliaveis; ao contnirio, parecem ate se en-
esta insuficientemente elaborado - eu diria mesmo que esta cadear com
bastante verossimilhan,a: afinal de contas, a re-      totalmente
inelaborado - e tambem porque creio que as duas pressao nao e a
conseqiiencia politica da guerra, um pouco       n090es, de "repressao"
e de "guerra", devem ser consideravel- como a opressao, na teoria
cbissica do direito politico, era 0   mente modificadas, quando nao,
talvez, no limite, abandona- abuso da soberania na ordem juridica?
das. Em todo caso, e precise olhar de perto essas duas no,iies,
Poderiamos, pois, contrapor dois grandes sistemas de       "repressao" e
"guerra", OU, se preferirem, 0100 urn pOlleD analise do poder. Um, que
seria 0 velho sistema que voces        mais de perto a hipotese de que
os mecanismos de poder se-
riam essencialmente mecanismos de repressao, e a outra hipo- encontram
nos filosofos do seculo XVIII, se articularia em
tese de que, sob 0 poder politico, 0 que paira e 0 que funciona tome do
poder como direito original que se cede, constitu-
e essencialmente e acima de tudo urna rela,ao belicosa. tivo da
soberania, e tendo 0 contrato como matriz do poder
Acho, e nao digo isso para me gabar, que ja faz bastante politico. E
haveria 0 risco de esse poder assim constituido,     tempo que desconfio
dessa no,ao de "repressao", e tentei quando ultrapassa a si mesmo, ou
seja, quando vai alem dos       mostrar a voces, justamente a proposito
das genealogias de proprios termos do contrato, tomar-se opressao.
Poder-con-       que eu falava agora ha pouco, a proposito da historia
do trato, tendo como limite, ou melhor, como ultrapassagem do
direito penal, do poder psiquiatrico, do controle da sexuali- limite, a
opressao. E voces teriam 0 outro sistema que ten-      dade infantil,
etc., que os mecanismos empregados nessas taria, pelo contrario,
analisar 0 poder politico nao mais de     forma,iies de poder eram algo
muito diferente da repressao; acordo com 0 esquema contrato-opressao,
mas de acordo            em todo caso, eram bem mais que ela. Eu nao
posso conti- com 0 esquema guerra-repressao. E, nesse momento, a re-
nuar sem retomar um pouquinho, justamente, essa analise pressao naD   e
0 que era a opressao em relayao ao contrato,     da repressao, sem
juntar um pouco tudo 0 que pude dizer de ou seja, urn abuso, mas, ao
contnirio, 0 simples efeito e 0      uma forma sem duvida um pouco
desconexa. Por conse- simples prosseguimento de uma rela,ao de
domina,ao. A            guinte, a proxima aula OU, eventualmente, as
duas pr6ximas repressao nada mais sena que    0   emprego, no interior
dessa   serao dedicadas it retomada critica da no,ao de "repressao",
pseudopaz solapada por uma guerra continua, de uma rela-         a
tentar mostrar em que e como essa no,ao, de repressao, ,ao de for,a
perpetua. Portanto, dois esquemas de analise        tao corrente agora,
para caracterizar os mecanismos e os do pader: 0 esquema
contrato-opressao, que e, se voces pre-      efeitos do poder, e
totalmente insuficiente para demarca-los1o. ferirem, 0 esquema juridico,
e 0 esquema guerra-repressao, ou domina,ao-repressao, no qual a oposi,ao
pertinente nao                lO. Promessa nao cumprida. Existe, nao
obstante, intercalado no manus- e a do legitime e do ilegitimo, como no
esquema preceden-        crito, urn curso sobre a "repressao" dado, pOT
certo, nurna universidade estran- te, mas a oposi,ao entre luta e
submissao. geira. A questiio sera retomada em La volonte de savoir,
Paris, Gallimard, 1976. 26                                 EM DEFESA DA
SOCIEDADE       Mas 0 essencial do curso sem dedicado ao outro item, ou
AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 seja, ao problema da guerra. Eu gostaria
de tentar ver em que medida 0 esquema binirrio da guerra, da luta, do
enfrentamen- to das for,as, pode ser efetivamente identificado como 0
fun-
Guerra e poder. - A filosofia e os limites do poder. - damento da
sociedade civil, a urn s6 tempo 0 principio e 0                  Diretto
e poder regia. - Lei, dominaryQo e sujeiryQo. - Ana/i- motor do
exercicio do poder politico. Emesmo exatamente da                  fica
do poder: questoes de metodo. - Teoria da soberania. - 0 guerra que se
deve falar para analisar 0 funcionamento do                   poder
disciplinar. - A regra e a norma. poder? Sao validas as no,oes de
"tittica", de "estrategia", de "rela,ao de for,a"? Em que medida 0 sao?
0 poder, pura e simplesmente, e urna guerra continuada por meios que nao
as armas ou as batalhas? Sob 0 tema agora tornado corrente, te- ma alias
relativamente recente, de que 0 poder tem a incurn- bencia de defender a
sociedade, deve-se ou nao entender que a sociedade em sua estrutura
politica e organizada de maneira          Este ano eu gostaria de
come,ar, mas come,ar somen- que alguns possam se defender contra os
outros, ou defender       te, uma serie de pesquisas sobre a guerra como
principio sua domina,ao contra a revolta dos outros, ou simplesmente
eventual de analise das rela,oes de poder: sera no aspecto ainda,
defender sua vit6ria e pereniza-Ia na sujei,ao?            da rela,ao
belicosa, do lado do modelo da guerra, do lado       Portanto, 0 esquema
do curso deste ano sera 0 seguinte:    .do esquema da luta, das lutas,
que se podera encontrar um primeiro, urna ou duas aulas consagradas a
retomada da no-       principio de inteligibilidade e de analise do
poder politico, ,ao de repressao; depois come,arei [a tratar] -
eventualmen-
do poder politico decifrado, pois, em termos de guerra, de te,
prosseguirei nos anos seguintes, sei la - esse problema da
lutas, de enfrentamentos? Eu gostaria de come,ar, for,osa- guerra na
sociedade civil. Come,arei por deixar de lado,
mente, como contraponto, com a anillise da institui,ao militar,
justamente, aqueles que passam por te6ricos da guerra na
das institui,oes militares, em seu funcionamento real, efeti- sociedade
civil e que nao 0 sao absolutamente em minha opi-
vo, hist6rico, em nossas sociedades, desde 0 seculo XVII niao, isto e,
Maquiavel e Hobbes. Depois tentarei retomar a
ate os nossos dias. teoria da guerra como principio hist6rico de
funcionamento
Ate agora, durante os cinco ultimos anos, em linhas ge- do poder, em
torno do problema da ra,a, ja que e no bina- rismo das ra,as que foi
percebida, pela primeira vez no          rais, as disciplinas; nos cinco
anos seguintes, a guerra, a luta, Ocidente, a possibilidade de analisar
0 poder politico como      o exercito. Gostaria ainda assim de fazer urn
balan,o do que guerra. E tentarei conduzir isso ate 0 momento em que
luta       tentei dizer no decorrer dos anos anteriores, porque isso me
de ra,as e luta de classes se tornam, no final do seculo XIX,   fara
ganhar tempo para as minhas pesquisas sobre a guerra,  os dois grandes
esquemas segundo os quais se [tenta] situar     que nao estao muito
avan,adas, e porque, eventualmente, o fenomeno da guerra e as rela,oes
de for,a no interior da       pode servir de ponto de referencia para
aqueles dentre voces  sociedade politica. que nao estavam aqui nos anos
anteriores. Em todo caso, de- 28                                 EM
DEFESA DA SOC1EDADE         AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
29 sejaria fazer 0 balan,o, para mim mesmo, do que tentei per-
dade e so podemos exercer 0 poder mediante a produ,ao da correr.
verdade. Isso e verdadeiro em toda sociedade, mas acho que      o que eu
tentei percorrer, desde 1970-1971, era 0 "co-         na nossa essa
rela,ao entre poder, direito e verdade se orga- mo" do poder. Estudar 0
"como do poder", isto e, tentar             mza de urn modo muito
particular. apreender seus mecanismos entre dois pontos de referencia
Para assinalar simplesmente, nao 0 proprio mecanismo ou dois limites: de
urn lado, as regras de direito que delimi-     da rela,ao entre poder,
direito e verdade, mas a intensidade da tam formalmente 0 poder, de
outro lado, a outra extremida-         rela,ao e sua constancia, digamos
isto: somos for,ados a de, 0 outro limite, seriam os efeitos de verdade
que esse          produzir a verdade pelo poder que exige essa verdade e
que poder produz, que esse poder conduz e que, por sua vez,
necessita dela para funcionar; temos de dizer a verdade, so- reconduzem
esse poder. Portanto, triangulo: poder, direito,        mos coagidos,
somos condenados a confessar a verdade ou verdade. Digamos,
esquematicamente, isto: existe urna ques-        a encontra-Ia. 0 poder
nao para de questionar, de nos ques- tao tradicional que e aquela, acho
eu, da filosofia politica e     tIonar; nao para de inquirir, de
registrar; ele institucionaliza que se poderia formular assim: como 0
discurso da verdade          a busca da verdade, ele a profissionaliza,
ele a recompensa. ou, pura e simplesmente, como a filosofia, entendida
como          Temos de produzir a verdade como, afinal de contas, temos
o discurso por excelencia da verdade, podem fixar os limi-        de
produzir riquezas, e temos de produzir a verdade para po- tes de direito
do poder? Essa e a questao tradicional. Ora, a     der produzir
riquezas. E, de outro lado, somos igualmente que eu queria formular e
uma questao abaixo desta, urna           submetidos a verdade, no
sentido de que a verdade e a norma' questao muito factual em compara,ao
a essa questao tradi-         e 0 discurso verdadeiro que, ao menos em
parte, decide; el~ cional, nobre e filos6fica. Meu problema seria de
certo modo      veicula, ele proprio propulsa efeitos de poder. Afinal
de con- este: quais sao as regras de direito de que lan,am mao as re-
tas, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a la,5es de
poder para produzir discursos de verdade? Ou            tarefas,
destinados a uma certa maneira de viver ou a uma ainda: qual e esse tipo
de poder capaz de produzir discursos      certa maneira de morrer, em
fun,ao de discursos verdadeiros de verdade que sao, nurna sociedade como
a nossa, dotados de      que trazem consigo efeitos especificos de
poder. Portanto~ efeitos tao potentes?
regras de direito, mecanismos de poder, efeitos de verdade.      Quero
dizer 0 seguinte: numa sociedade como a nossa          Ou ainda: regras
de poder e poder dos discursos verdadeiros. - mas, afinal de contas, em
qualquer sociedade - multiplas        Foi mais ou menos esse 0 dominio
geral do percurso que eu rela,5es de poder perpassam, caracterizam,
constituem 0          qUls fazer, percurso que segui, sei bern, de urna
maneira par- corpo social; elas nao podem dissociar-se, nem
estabelecer-se,   clal e com muitos ziguezagues. nem funcionar sem urna
produ,ao, uma acurnula,ao, uma                  Sobre esse percurso, eu
agora gostaria de dizer algu- circula,ao, urn funcionamento do discurso
verdadeiro. Nao        mas palavras. Que principio geral me guiou e
quais foram hit exercicio do poder sem uma certa economia dos discur-
as instru,5es imperativas ou as precau,5es de metodo que sos de verdade
que funcionam nesse poder, a partir e atra-       eu qUls tomar? Urn
principio geral no que se refere as rela- yeS dele. Somos submetidos
pelo poder a produ,ao da ver-         ,5es entre 0 direito e 0 poder:
parece-me que hit urn fato que 30                                  EM
DEFESA DA SOCIEDADE         AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
31 nao se pode esquecer: nas sociedades ocidentais, e isto desde
quado a urn direito fundamental; seja, ao contrario, para mos- a Idade
Media, a elabora,ao do pensamento juridico se fez          trar como se
devia limitar esse poder do soberano, a quais essencialmente em tomo do
poder regio. Foi a pedido do po-         regras de direito ele devia
submeter-se, segundo e no inte- der regio, foi igualmente em seu
proveito, foi para servir-        rior de que limites ele deveria
exercer seu poder para que esse lhe de instrumento ou de justifica,ao
que se elaborou 0 edi-       poder conservasse sua legitimidade. 0 papel
essencial da teo- ficio juridico de nossas sociedades. 0 direito no
Ocidente e       ria do direito, desde a Idade Media, e 0 de fixar a
legitimi- urn direito de encomenda regia. Todos conhecem, claro, 0 pa-
dade do poder: 0 problema maior, central, em tomo do qual pel famoso,
celebre, repetido, repisado, dos juristas na orga-     se organiza toda
a teoria do direito e 0 problema da soberania. niza,ao do poder regio.
Nao convem esquecer que a reativa-         Dizer que 0 problema da
soberania e 0 problema central do ,ao do direito romano, em meados da
Idade Media, que foi           direito nas sociedades ocidentais
significa que 0 discurso e o grande fenameno ao redor e a partir do qual
se reconsti-         a tecnica do direito tiveram essencialmente como
fun,ao dis- tuiu 0 edificio juridico dissociado depois da queda do Impe-
solver, no interior do poder, 0 fato da domina,ao, para fazer rio
Romano, foi urn dos instrumentos tecnicos constitutivos        que
aparecessem no lugar dessa domina,ao, que se queria do poder monarquico,
autorit:irio, administrativo e, finalmen-     reduzir ou mascarar, duas
coisas: de urn lado, os direitos
legitimos da soberania, do outro, a obriga,ao legal da obe- te,
absoluto. Forma,ao, pois, do edificio juridico ao redor da
diencia. 0 sistema do direito e inteiramente centrado no rei, personagem
regia, a pedido mesmo e em proveito do poder
o que quer dizer que e, em ultima analise, a evic,ao do fato regio.
Quando esse edificio juridico, nos seculos seguintes,
da domina,ao e de suas conseqiiencias. escapar ao controle regio, quando
se tiver voltado contra 0
Nos anos precedentes, ao falar das diferentes pequenas poder regio, 0
que sera discutido serao sempre os limites des-
coisas que evoquei, 0 projeto geral era, no fundo, inverter se poder, a
questao referente as suas prerrogativas. Em outras
essa dire,ao geral da analise, que e aquela, creio eu, do dis- palavras,
creio que a personagem central, em todo 0 edificio       curso do
direito por inteiro desde a Idade Media. Eu tentei juridico ocidental, e
0 rei. E do rei que se trata, e do rei, de   fazer 0 inverso, ou seja,
deixar, ao contnirio, valer como urn seus direitos, de seu poder, dos
eventuais limites de seu po-      fato, tanto em seu segredo como em sua
brutalidade, a do- der, e disso que se trata fundamentalmente no sistema
geral,       minar;3.o, e depois mostrar, a partir dai, naG s6 como 0
direi- na organiza,ao geral, em todo caso, do sistema juridico oci-
to e, de uma maneira geral, 0 instrumento dessa domina,ao dental. Que os
juristas tenham sido os servidores do rei ou        - isso e 6bvio - mas
tambem como, ate onde e sob que for- tenham sido seus adversarios, de
qualquer modo sempre se           ma, 0 direito (e quando digo 0
direito, nao penso somente na trata do poder regio nesses grandes
edificios do pensamen-         lei, mas no conjunto dos aparelhos,
institui,5es, regulamentos, to e do saber juridicos. que aplicam 0
direito) veicula e aplica rela,5es que nao sao       E, do poder regio,
trata-se de duas maneiras: seja para      rela,5es de soberania, mas
rela,5es de domina,ao. E, com mostrar em que armadura juridica 0 poder
real se investia,         domina,ao, nao quero dizer 0 fato maci,o de
"uma" domi- como 0 monarca era efetivamente 0 corpo vivo da sobera-
na,ao global de urn sobre os outros, ou de urn grupo sobre nia, como seu
pader, mesma absoluto, era exatamente ade-           o outro, mas as
multiplas formas de domina,ao que podem 32
EM DEFESA DA SOCIEDADE         AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
33 se exercer no interior da sociedade: nao, portanto, 0 rei em
mente, a puni,ao, 0 poder de punir consolidavam-se nurn cer- sua posi,ao
central, mas os suditos em suas rela,oes reci-        to nlimero de
institui,oes locais, regionais, materiais, seja 0 procas; naD a
soberania em seu edificio tinieD, mas as mul-       suplicio ou seja 0
aprisionamento, e isto no mundo a urn s6 tiplas sujei,oes que ocorreram
e funcionam no interior do         tempo institucional, fisico,
regulamentar e violento dos apa- corpo social. relhos efetivos da
puni,ao. Em outras palavras, apreender 0       o sistema do direito e 0
campo judiciario sao 0 veiculo     poder sob 0 aspecto da extremidade
cada vez menos juridi- permanente de rela,oes de domina,ao, de tecnicas
de sujei,ao      ca de seu exercicio: era a primeira instru,ao dada.
polimorfas. 0 direito, e preciso examimi-Io, creio eu, nao sob
Segunda instru,ao: tratava-se de nao analisar 0 poder o aspecto de uma
legitimidade a ser fixada, mas sob 0 as-         no nivel da inten,ao ou
da decisao, de nao procurar consi- pecto dos procedimentos de sujei,ao
que ele poe em pdtica. dera-Io do lado de dentro, de nao formular a
questao (que Logo, a questa-o, para mim, e curto-circuitar ou evitar
esse      acho labirintica e sem saida) que consiste em dizer: quem
problema, central para 0 direito, da soberania e da obedien-      tern 0
poder afinal? 0 que tern na cabe,a e 0 que procura cia dos individuos
submetidos a essa soberania, e fazer que       aquele que tern 0 poder?
Mas sim de estudar 0 poder, ao apare,a, no lugar da soberania e da
obediencia, 0 problema
contrario, do lado em que sua inten,ao - se inten,ao houver da domina,ao
e da sujei,ao. Assim sendo, era necessario
- esta inteiramente concentrada no interior de pdticas reais certo
numero de precau,oes de metodo para procurar seguir
e efetivas; estudar 0 poder, de certo modo, do lado de sua essa linha,
que tentava curto-circuitar a linha geral da anali-
face extema, no ponto em que ele esta em rela,ao direta e se juridica ou
se desviar dela.       Precau,oes de metodo; esta primeiro: nao se trata
de        imediata com 0 que se pode denominar, muito provisoria-
analisar as formas regulamentadas e legitimas do poder em         mente,
seu objeto, seu alvo, seu campo de aplica,ao, no pon- seu centro, no que
podem ser seus mecanismos gerais ou            to, em outras palavras,
em que ele se implanta e produz seus seus efeitos de conjunto. Trata-se
de apreender, ao contrario,    efeitos reais. Portanto, nao: por que
certas pessoas querem o poder em suas extremidades, em seus ultimos
lineamentos,        dominar? 0 que elas procuram? Qual e sua estrategia
de onde ele se toma capilar; ou seja: tomar 0 poder em suas
conjooto? E siro: como as coisas acontecem no momento mes- formas e em
suas institui,oes mais regionais, mais locais,        mo, no nivel, na
altura do procedimento de sujei,ao, ou nes- sobretudo no ponto em que
esse poder, indo alem das regras        ses processos continuos e
ininterruptos que sujeitam os cor- de direito que 0 organizam e 0
delimitam, se prolonga, em         pos, dirigem os gestos, regem os
comportamentos. Noutros conseqiiencia, mais alem dessas regras,
investe-se em insti-      termos, em vez de perguntar-se como 0 soberano
aparece tui,oes, consolida-se nas tecnicas e fomece instrumentos de
no alto, procurar saber como se constituiram pouco a pouco, interven~ao
materiais, eventualmente ate violentos. Urn exem-     progressivamente,
realmente, materialmente, os suditos, 0 plo, se voces quiserem: em vez
de procurar saber onde e           sudito, a partir da multiplicidade
dos corpos, das for,as, das como na soberania, tal como ela e
apresentada pela filoso-        energias, das materias, dos desejos, dos
pensamentos, etc. fia, seja do direito monarquico, seja do direito
democdtico,      Apreender a instancia material da sujei,ao enquanto
consti- se fundamenta 0 poder de punir, tentei ver como, efetiva-
tui9ao dos suditos seria, se voces quiserem, exatamente 0 34
EM DEFESA DA SOCIEDADE                  AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
35 contrario do que Hobbes tinba pretendido fazer no Leviatii 1,
to longe, nao e algo que se partilhe entre aqueles que 0 tern e, acho
eu, afinal de contas, todos os juristas, quando 0 pro-
e que 0 detem exclusivamente, e aqueles que nao 0 tern e que blema deles
e saber como, a partir da multiplicidade dos in-
sao submetidos a ele. 0 poder, acho eu, deve ser analisado dividuos e
das vontades, pode se formar urna vontade ou
como uma coisa que circula, ou melhor, como uma coisa ainda urn corpo
Unicos, mas animados por urna alma que
que so funciona em cadeia. Jamais ele esta localizado aqui seria a
soberania. Lembrem-se do esquema do Leviatii':
ou ali, jamais esui entre as maos de alguns, jamais e apossa- nesse
esquema, 0 Leviata, enquanto homem fabricado, nao
do como uma riqueza ou urn bern. 0 poder funciona. 0
poder se exerce em rede e, nessa rede, nao so os individuos e mais do
que a coagula9ao de urn certo numero de indivi-
circulam, mas esmo sempre em posi9ao de ser submetidos a dualidades
separadas, que se encontram reunidas por certo
esse poder e tambem de exerce-Io. Jamais eles sao 0 alvo numero de
elementos constitutivos do Estado. Mas, no co-
inerte ou consentidor do poder, sao sempre seus intermedia- ra9ao, ou
melhor, na cabe9a do Estado, existe alguma coisa
rios. Em outras palavras, 0 poder transita pelos individuos, que 0
constitui como tal, e essa alguma coisa e a soberania,
nao se aplica a eles. da qual Hobbes diz que e precisamente a alma do
Leviata. Nao se deve, acho eu, conceber 0 individuo como urna Pois bern,
em vez de formular esse problema da alma cen-
especie de nuc1eo elementar, itomo primitivo, materia mul- tral, eu acho
que conviria tentar - 0 que eu tentei fazer - es-
tipla e muda na qual viria aplicar-se, contra a qual viria tudar os
corpos perifericos e multiplos, esses corpos consti-
bater 0 poder, que submeteria os individuos ou os quebran- tuidos, pelos
efeitos do poder, como suditos. taria. Na realidade, 0 que faz que urn
corpo, gestos, discur-       Terceira precau9ao de metodo: nao tomar 0
poder como                            sos, desejos sejam identificados e
constituidos como indivi- urn fenomeno de domina9ao maci90 e homogeneo -
domi-                                  duos, e precisamente isso urn dos
efeitos primeiros do poder. na9ao de urn individuo sobre os outros, de
urn grupo sobre                            Quer dizer, 0 individuo nao e
0 vis-a-vis do poder; e, acho os outros, de uma c1asse sabre as outras
-; ter bern em mente                         eu, urn de seus efeitos
primeiros. 0 individuo e urn efeito que 0 poder, exceto ao considera-Io
de muito alto e de mui-                           do poder e e, ao mesmo
tempo, na mesma medida em que e
urn efeito seu, seu intermediario: 0 poder transita pelo indivi-
duo que ele constituiu.       1. Th. Hobbes, Leviathan, or the Matter,
Forme and Power ofa Common-                  Quarta conseqiiencia no
plano das precau90es de meto- Wealth, Ecclesiastical! and Civill,
Londres, 1651 (trad. fr.: Leviathan. Traite de fa matiere, de fa forme
et du pouvoir de fa republique ecclesiastique et civile,
do: quando eu digo: "0 poder e algo que se exerce, que cir- Paris,
Sirey, 1971). A tradw,:ao latina do texto, que era, de fato, uma nova
versao   cula, que forma rede", talvez seja verdade ate certo ponto.
sua, foi publicada em Amsterdam em 1668. Pode-se igualmente dizer:
"Todos nos temos fascismo na        2. Michel Foucault alude aqui ao
celebre frontispicio da ediyao do             cabe9a"; e, mais
fundamentalmente ainda: "todos nos temos Leviathan, chamada "head
edition" (citarla na nota 1), publicada por Andrew           poder no
corpo". E 0 poder - pelo menos em certa medida Crooke, que representa 0
coepo do Estado constituido pelos suditos, ao passo que a cabe9a
representa 0 soberano, que com uma mao segura a espada e com
- transita ou transuma por nosso corpo. Tudo isso, de fato, a outra 0
baculo. Embaixo, os atributos fundamentais dos dois poderes, civil e
pode ser dito; mas nao creio que seja precise concluir, a par-
ec1esiastico. tir dai, que 0 poder seria, se voces quiserem, a coisa
mais 36                                 EM DEFESA DA SOCIEDADE
AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
37 bern distribuida do mundo, a mais distribuida, se bern que,
sempre; ela e sempre facil, e e precisamente isso que eu Ihe ate certo
ponto, ele 0 seja. Nao e uma especie de distribui-        reprovarei. E,
de fato, facil mostrar como 0 louco, sendo pre- ~ao democnitica ou
amirquica do poder atraves do corpo. cisamente aquele que e imitil na
produ~ao industrial, como Quero dizer 0 seguinte: parece-me que - essa
seria entao a         se e ate mesmo obrigado a descartar-se deles.
Poderiamos quarta precau~ao de metodo - 0 importante e que nao se
fazer a mesma caisa, se voces quiserem, nao mais a respeito deve fazer
uma especie de dedu~ao do poder que partiria do         do louco, mas a
respeito da sexualidade infantil - foi 0 que centro e que tentaria ver
ate onde ele se prolonga por baixo,      fez certo nillnero de pessoas,
ate certo ponto Wilhelm Reichl, em que medida ele se reproduz, ele se
reconduz ate os ele-         Reimut Reiche 4 certamente - e dizer: a
partir da domina~ao mentos mais atomisticos da sociedade. Creio que e
preciso,         da classe burguesa, como se pode compreender a
repressao ao contrario, que seria preciso - e uma precau~ao de metodo
da sexualidade infantil? Pois bern, simplesmente, como 0 a seguir -
fazer uma am\lise ascendente do poder, ou seja,         corpo humano se
tomou essencialmente for~a produtiva a partir dos mecanismos
infinitesimais, os quais tern sua pro-       partir dos seculos XVII,
XVIII, todas as formas de dispen- pria historia, seu proprio trajeto,
sua propria tecnica e tMi-     dio irredutiveis a essas rela~6es, it
constitui~ao das for~as ca, e depois ver como esses mecanismos de poder,
que tern,         produtivas, todas as formas de dispendio assim
manifesta- pois, sua solidez e, de certo modo, sua tecnologia propria,
fo-    das em sua inutilidade, foram banidas, excluidas, reprimidas. ram
e ainda sao investidos, colonizados, utilizados, inflecti-     Estas
dedu~6es sempre sao possiveis; sao ao mesmo tempo dos, transformados,
deslocados, estendidos, etc., por meca-        verdadeiras e falsas. Sao
essencialmente faceis demais, por- nismos cada vez mais gerais e por
formas de domina~ao              que se poderia fazer exatamente 0
contrario, e, precisamen- global. Nao e a domina~ao global que se
pluraliza e reper-        te, a partir do principio de que a burguesia
se tomou uma cute ate em baixo. Creio que e preciso examinar 0 modo
classe dominante, deduzir que os controles da sexualidade, como, nos
niveis mais baixos, os fen6menos, as tecnicas, as       e da sexualidade
infantil, nao sao absolutamente desejaveis; procedimentos de poder
atuam; mostrar como esses proce-           ora, ao contnirio, 0 que se
necessitaria seria uma aprendiza- dimentos, e claro, se deslocam, se
estendem, se modificam,        gem sexual, um treinamento sexual, uma
precocidade sexual, mas, sobretudo, como eles sao investidos, anexados
por fen6-      na medida em que se trata, afinal de contas, de
reconstituir menos globais, e como poderes mais gerais ou lucros de eco-
pela sexualidade uma for~a de trabalho a qual, como se sabe, nomia podem
introduzir-se no jogo dessas tecnologias, ao          considerava-se, no
inicio do seculo XIX pelo menos, que mesmo tempo relativamente aut6nomas
e infinitesimais, de          seu estatuto otimo seria ser infinita:
quanto mais for~as de poder. trabalho houvesse, mais plena e
corretamente 0 sistema da      Urn exemplo, para que isso fique mais
claro, a respeito      produ~ao capitalista poderia funcionar. da
loucura. Poderiam dizer 0 seguinte, e seria essa a analise descendente
da qual, acho eu, devemos desconfiar: a bur-
3. W. Reich, Der Einbruch der Sexualmoral, op. cit. guesia tomou-se, a
partir do fim do seculo XVI e no seculo              4. R. Reiche,
Sexualitiit und Klassenkampf; zur Abwehr repressiver XVII, a classe
dominante. Dito isso, como se pode deduzir         Entsublimierung,
Frankfurt, Verlag Neue Kritik, 1968 (trad fr.: Sexualitd et lutte dai 0
intemamento dos loucos? A dedu~ao, voces a farao            de classes,
Paris, Maspero, 1969). 38                                 EM DEFESA DA
SOCIEDADE          AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
39      Creio que se pode deduzir qualquer coisa do fenomeno
mente conteudo real, ao menos para os problemas que aca- geral da
domina9iio da classe burguesa. Parece-me que 0 que         bamos de
levantar agora, 0 que se deve ver e justamente que se deve fazer e 0
inverso, au seja, ver como, historicamente,       niio houve a burguesia
que pensou que a loucura deveria ser partindo de baixo, os mecanismos de
controle puderam in-            excluida ou que a sexualidade infantil
devena ser repnmi- tervir no tocante a exclusiio da loucura, a
repressiio, a proi-     da, mas os mecanismos de exclusiio da loucura,
os mecanis- bi9iio da sexualidade; como, no nivel efetivo da familia, do
mos de vigiliincia da sexualidade infantil, a partir de urn cer- circulo
imediato, das celulas, ou nos niveis mais baixos da
to momento, e por razoes que e preciso estudar, produziram sociedade,
estes fenomenos, de repressiio ou de exclusiio, ti-
certo lucro economico, certa utilidade politica e, por essa veram seus
instrurnentos, sua logica, corresponderam a urn
raziio, se viram naturalmente colonizados e sustentados por certo nUmero
de necessidades; mostrar quais foram os seus
mecanismos globais e, finalmente, pelo sistema do Estado agentes, e
procurar esses agentes niio, de modo algum, no
inteiro. E e fixando-se nessas tecnicas de poder, partindo ambito da
burguesia em geral, mas dos agentes reais, que podem ter sido 0 circulo
imediato, a familia, os pais, os me-      delas, e mostrando 0 lucro
economico ou as utilidades poli- dicos, 0 escaHio mais baixo da policia,
etc.; e como esses         ticas que delas denvam, em certo contexto e
por certas ra- mecanismos de poder, em dado momento, numa conjuntura
zoes, que se pode compreender como, efetivamente, esses precisa, e
mediante certo numero de transforma90es, come-          mecanismos
acabam por fazer parte do conjunto. Em outras 9aram a tomar-se
economicamente lucrativos e politicamen-         palavras: a burguesia
niio da a menor importiincia aos lou- te uteis. E conseguiriamos, acho
eu, mostrar facilmente -         cos, mas os procedimentos de exclusiio
dos loucos produzi- enfim, foi 0 que eu quis fazer antigamente, vanas
vezes em        ram, liberaram, a partir do seculo XIX e mais uma vez
se- todo caso - que, no fundo, aquilo de que a burguesia neces-
gundo certas transforma90es, urn lucro politico, eventual- sitou, aquilo
em que finalmente 0 sistema encontrou seu in-       mente ate certa
utilidade economica, que solidificaram 0 teresse, niio foi que os loucos
fossem excluidos, ou que a        sistema e 0 fizeram funcionar no
conjunto. A burguesia niio masturba9iio das cnan9as fosse vigiada e
proibida - mais          se interessa pelos loucos, mas pelo poder que
incide sobre uma vez, 0 sistema burgues pode suportar perfeitamente 0
os loucos; a burguesia niio se interessa pela sexualidade da contnirio
-; 0 ponto em que ele encontrou seu interesse e         cnan9a, mas pelo
sistema de poder que controla a sexuali- pelo qual ele se mobilizou niio
foi no fato de eles serem         dade da cnan9a. A burguesia niio da a
menor importancia excluidos, mas na tecnica e no proprio procedimento da
aos delinqiientes, a Puni9iio ou a reinser9iio deles, que niio
exclusiio. Foram os mecanismos de exclusiio, foi a aparelha-      tern
economicamente muita interesse. Em compensa9ao, do gem de vigiliincia,
foi a medicaliza9iio da sexualidade, da       conjunto dos mecanismos
pelos quais 0 delinqiiente e con- loucura, da delinqiiencia, foi tudo
isso, isto e, a micromeca-    trolado, seguido, punido, reformado,
resulta, para a burgue- nica do poder, que representou, constituido pela
burguesia, a     sia, urn interesse que funciona no interior do sistema
econo- partir de certo momento, urn interesse, e foi por isso que a
mico-politico gera!. Eis a quarta precau9iio, a quarta linha burguesia
se interessou. de metodo que eu quena seguir.      Digamos ainda: na
medida em que as n090es de "bur-                 Quinta precau9iio: e
bern possivel que as grandes ma- guesia" e de "interesse da burguesia"
nao tern verossimil-        quinas do poder sejam acompanhadas de
produ90es ideolo- 40                                  EM DEFESA DA
SOCIEDADE         AULA DE 14 DE JANEIRO DE I976
41 gicas. Houve sem duvida, por exemplo, urna ideologia da edu-
Ora, percorrendo esse dominio tomando essas precau- ca,ao, uma ideologia
do poder monarquico, urna ideologia da        ,oes de metodo, eu acho
que aparece um fato hist6rico ma- democracia parlamentar, etc. Mas, na
base, no ponto em que         ci,o, que vai afinal nos introduzir um
pouco ao problema terminam as redes de poder, 0 que se forma, nao acho
que se-       de que eu queria falar a partir de hoje. Esse fato
hist6rico jam ideologias. E muito menOS e, acho eu, muito mais. Sao
maci,o e 0 seguinte: a teoria juridico-politica da soberania
instrumentos efetivos de forma,ao e de aCUmulo de saber, sao       -
teoria de que devemos nos desligar se quisermos analisar metodos de
observa,ao, tecnicas de registro, procedimentos         o poder - data
da Idade Media; ela data da reativa,ao do de investiga,ao e de pesquisa,
sao aparelhos de verifica,ao. direito romano; ela constituiu-se em torno
do problema da Isto quer dizer que 0 poder, quando se exerce em seus
meca-        monarquia e do monarca. E acho que, historicamente, essa
nismos finos, nao pode faze-lo sem a forma,ao, a organiza,ao
teoria da soberania - que e a grande esparrela em que cor- e sem por em
circuIa,ao urn saber, ou melhor, aparelhos de         remos 0 risco de
cair, quando queremos analisar 0 poder - saber que nao sao
acompanhamentos ou edificios ideol6gicos. desempenhou quatro papeis.
Para resurnir essas cinco precau,oes de metodo, eu di-
Primeiro, ela se referiu a urn mecanismo de poder efe- ria isto: em vez
de orientar a pesquisa sobre 0 poder para 0       tivo, que era 0 da
monarquia feudal. Segundo, ela serviu de ambito do edificio juridico da
soberania, para 0 ambito dos        instrumento, e tambem de
justifica,ao, para a constitui,ao aparelhos de Estado, para 0 ambito das
ideologias que 0            das grandes monarquias administrativas.
Depois, a partir do acompanham, creio que se deve orientar a analise do
poder          seculo XVI, sobretudo do seculo XVII, ja no momento das
para 0 ambito da domina,ao (e nao da soberania), para 0
guerras de Religiao, a teoria da soberania foi uma arma que  ambito dos
operadores materiais, para 0 ambito das formas         circulou num
campo e no outro, que foi utilizada num senti-  de sujei,ao, para 0
ambito das conexoes e utiliza,oes dos         do ou no outro, seja para
limitar, seja, ao contrario, para for-  sistemas locais dessa sujei,ao e
para 0 ambito, enfim, dos dis-   talecer 0 poder regio. Voces a
encontram do lado dos cat6-  positivos de saber. licos monarquistas ou
dos protestantes antimonarquistas;       Em suma, e preciso
desvencilhar-se do modelo do Le-          voces a encontram do lado dos
protestantes monarquistas e  viata, desse modelo de urn homem
artificial, a urn s6 tempo       mais ou menos liberais; voces a
encontram tambem do lado  automato, fabricado e unitario igualmente, que
envolveria         dos cat6licos partidarios do regicidio ou da mudan,a
de di-  todos os individuos reais, e cujo corpo seriam os cidadaos,
nastia. Voces encontram essa teoria da soberania que atua  mas cuja alma
seria a soberania. E preciso estudar 0 poder        entre as maos dos
aristocratas ou entre as maos dos parla-  fora do modelo do Leviata,
fora do campo delimitado pela          mentares, do lado dos
representantes do poder regio ou do  soberania juridica e pela
institui,ao do Estado; trata-se de      lado dos ultimos senhores
feudais. Em resumo, ela foi 0  analisa-lo a partir das tecnicas e tMicas
de domina,ao. Eis a     grande instrumento da luta politica e te6rica em
torno dos  linha met6dica que, acho eu, se deve seguir, e que tentei se-
sistemas de poder dos seculos XVI e XVII. Enfim, no seculo  guir nessas
diferentes pesquisas que [realizamos] nos anos        XVIII, e sempre
essa mesma teoria da soberania, reativada  anteriores a prop6sito do
poder psiquiMrico, da sexualidade       do direito romano, que voces vao
encontrar em Rousseau e em  das crian,as, do sistema punitivo, etc. seus
contemporaneos, com urn outro papel, urn quarto papel: 42
EM DEFESA DA SOCIEDADE         AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
43 trata-se naquele momento de construir, contra as monarquias
Parece-me que este tipo de poder se opoe exatamente, administrativas,
autoritanas ou absolutas, urn modelo alter-     termo a termo, a
mecanica de poder que a teoria da sobera- nativo, 0 das democracias
parlamentares. E e este papel que      nia descrevia ou procurava
transcrever. A teoria da sobe- e!a ainda representa no momento da
Revolu9aO. rania e vinculada a uma forma de poder que se exerce sobre
Parece-me que, se seguimos esses quatro papeis, per-       a terra e os
produtos da terra, muito mais do que sobre os cebemos que, enquanto
durou a sociedade de tipo feudal, os       corpos e sobre 0 que e!es
fazem. [Essa teoria] diz respeito ao problemas de que tratava a teoria
da soberania, aqueles aos      deslocamento e a apropria9aO, pelo poder,
nao do tempo e quais ela se referia, cobriam efetivamente a meciinica
geral     do trabalho, mas dos bens e da riqueza. [E ela] que permite do
poder, 0 modo como ele se exercia, desde os niveis mais
transcrever em termos juridicos obriga90es descontinuas e elevados ate
os niveis mais baixos. Em outras palavras, a        cr6nicas de
tributos, e nao codificar uma vigilancia conti- rela9aO de soberania,
seja ela entendida de forma lata ou        nua; e uma teoria que permite
fundamentar 0 poder em tor- estrita, cobria em suma a totalidade do
corpo social. E, efe-    no e a partir da existencia fisica do soberano,
e nao dos sis- tivamente, 0 modo como 0 poder se exercia podia bern ser
temas continuos e permanentes de vigiliincia. A teoria da transcrito,
quanta ao essencial em todo caso, em termos de       soberania e, se
voces quiserem, 0 que permite fundamentar rela9aO soberano/sudito. o
poder absoluto no dispendio absoluto do poder, e nao cal-       Ora, nos
seculos XVII e XVlII ocorreu urn fen6meno         cular 0 poder com 0
minimo de dispendio e 0 maximo de importante: 0 aparecimento -
deveriamos dizer a inven9aO         eficacia. Esse novo tipo de poder,
que ja nao e, pois, de modo - de urna nova mecanica do poder, que tern
procedimentos        algurn transcritivel nos termos de soberania, e,
acho eu, uma bern particulares, instrumentos totalmente novos, uma apa-
das grandes inven90es da sociedade burguesa. Ele foi urn relhagem muito
diferente e que, acho eu, e absolutamente        dos instrumentos
fundamentais da impianta9aO do capitalis- incompativel com as rela90es
de soberania. Essa nova me-        mo industrial e do tipo de sociedade
que the e correlativo. ciinica de poder incide primeiro sobre os corpos
e sobre 0      Esse poder nao soberano, alheio portanto a forma da sobe-
que e!es fazem, mais do que sobre a terra e sobre 0 seu pro-    rania, e
0 poder "disciplinar". Poder indescritivel, injustifi- duto. E urn
mecanismo de poder que permite extrair dos          cave!, nos termos da
teoria da soberania, radicalmente hete-
rogeneo, e que deveria ter levado normalmente ao proprio corpos tempo e
trabalho, mais do que bens e riqueza. E urn
desaparecimento desse grande edificio juridico da teoria da tipo de
poder que se exerce continuamente por vigilancia e
soberania. Ora, de fato, a teoria da soberania nao s6 conti- nao de
forma descontinua por sistemas de tributos e de obri-
nuou a existir, se voces quiserem, como ideologia do direito, ga90es
cr6nicas. E urn tipo de poder que pressupoe muito
mas tambem continuou a organizar os codigos juridicos que mais uma trama
cerrada de coer90es materiais do que a
a Europa do seculo XIX elaborou para si a partir dos codi- existencia
fisica de urn soberano, e define urna nova econo-
gos napole6nicos 5 Por que a teoria da soberania persistiu mia de poder
cujo principio e 0 de que se deve ao mesmo tempo fazer que cres9am as
for9as sujeitadas e a for9a e a
5. Trata-se dos c6digos "napole6nicos": 0 Codigo civil (1804),   0   CO-
eficacia daquilo que as sujeita. digo de instnt~aO criminal (1808), e 0
C6digo penal (1810). 44                                 EM DEFESA DA
SOCIEDADE        AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976
45 assim como ideologia e como principio organizador dos gran-
crita nesse direito, que e, porem, seu acompanhamento ne- des codigos
juridicos?                                            cessaria. Urn
direito da soberania e uma mecanica da disci-       Eu creio que ha para
isso duas raz5es. De urn lado, a      plina: e entre esses dois limites,
creio eu, que se pratica 0 teoria da soberania foi, no seculo XVIII e
ainda no seculo        exercicio do poder. Mas esses dois limites sao de
tal forma, XIX, urn instrumento critico permanente contra a monar-
e sao ilio heterogeneos, que nunca se pode fazer que urn coin- quia e
contra todos os obstaculos que podiam opor-se ao de-      cida com 0
outro. 0 poder se exerce, nas sociedades moder- senvolvimento da
sociedade disciplinar. Mas, de outro, essa      nas, atraves, a partir
do e no proprio jogo dessa heterogenei- teoria e a organiza,ao de urn
cOdigo juridico, centrado nela,    dade entre urn direito publico da
soberania e urna meciinica permitiram sobrepor aos mecanismos da
disciplina urn sis-        polimorfa da disciplina. Isto nao quer dizer
que voces tern, tema de direito que mascarava os procedimentos dela, que
de urn lado, urn sistema de direito tagarela e explicito, que apagava 0
que podia haver de domina,ao e de tecnicas de          seria 0 da
soberania, e depois disciplinas obscuras e mudas domina,ao na disciplina
e, enfim, que garantia a cada qual       que trabalhariam em
profundidade, na sombra, e que cons- que ele exercia, atraves da
soberania do Estado, seus proprios   tituiriam 0 subsolo silencioso da
grande meciinica do poder. direitos soberanos. Em outras palavras, os
sistemas juridi-      De fato, as disciplinas tern seu discurso proprio.
Elas mes- cos, sejam as teorias, sejam os c6digos, permitiram uma
mas sao, pelas raz5es que eu Ihes dizia agora ha pouco, democratiza,ao
da soberania, a implanta,ao de urn direito        criadoras de aparelhos
de saber, de saberes e de campos mul- publico articulado a partir da
soberania coletiva, no mesmo      tiplos de conhecimento. Elas sao
extraordinariamente inven- momento, na medida em que e porque essa
democratiza,ao           tivas na ordem desses aparelhos de formar saber
e conheci- da soberania se encontrava lastrada em profundidade pelos
mentos, e sao portadoras de urn discurso, mas de urn discurso mecanismos
da coer,ao disciplinar. De urna forma mais            que nao pode ser 0
discurso do direito, 0 discurso juridico. densa, poderiamos dizer 0
seguinte: urna vez que as coer,5es     o discurso da disciplina e alheio
ao da lei; e alheio ao da disciplinares deviam ao mesmo tempo exercer-se
como me-          regra como efeito da vontade soberana. Portanto, as
disci- canismos de domina,ao e ser escondidas como exercicio
plinas vao trazer urn discurso que sera 0 da regra; nao 0 da efetivo do
poder, era preciso que fosse apresentada no apa-      regra juridica
derivada da soberania, mas 0 da regra natural, relho juridico e
reativada, concluida, pelos codigos judicia-    isto e, da norma. Elas
definirao urn codigo que sera aquele, rios, a teoria da soberania. nao
da lei, mas da normaliza,ao, e elas se referirao necessa-       Ternos,
pais, nas sociedades modernas, a partir do se-     riamente a urn
horizonte teorico que nao sera 0 edificio do culo XIX ate os nossos
dias, de urn lado urna legisla,ao, urn    direito, mas 0 campo das
ciencias humanas. E sua jurispru- discurso, urna organiza,ao do direito
publico articulados em     dencia, para essas disciplinas, sera a de urn
saber clinico. tomo do principio da soberania do corpo social e da
delega-            Em suma, 0 que quis mostrar no decorrer destes ulti-
,ao, por cada qual, de sua soberania ao Estado; e depois te-     mos
anos nao foi de modo algum como, na frente avan,ada mos, ao mesmo tempo,
urna trama cerrada de coer,5es dis-         das ciencias exatas, pouco a
pouco, a area incerta, dificil, ciplinares que garante, de fato, a
coesao desse mesmo corpo      confusa da conduta humana foi anexada it
ciencia: nao foi social. Ora, essa trama nao pode de modo algurn ser
trans-       atraves de urn progresso da racionalidade das ciencias exa-
46                                    EM DEFESA DA SOCIEDADE       AULA
DE 14 DE JANEIRO DE 1976                                47 tas que se
foram constituindo aos poucos as ciencias hurna-        direito
organizado em tomo da soberania, articulado sobre nas. Eu creio que 0
processo que tomou fundamentalmente            esse velho principio.
[sso faz com que, concretamente, quan- possivel 0 discurso das ciencias
humanas foi a justaposi,ao,       do se quer objetar alguma coisa contra
as disciplinas e con- o enfrentamento de dois mecanismos e de dois tipos
de dis-         tra todos os efeitos de saber e de poder que lhes sao
vincula- cursos absolutamente heterogeneos: de urn lado, a organiza-
dos, que se faz concretamente? Que se faz na vida? Que ,ao do direito em
tomo da soberania, do outro, a mecanica          fazem 0 sindicato da
magistratura ou outras institui,oes co- das coer,oes exercidas pelas
disciplinas. Que, atualmente, 0       mo esta? Que se faz, senao
precisamente invocar esse direi- poder se exer,a ao mesmo tempo atraves
desse direito e             to, esse famoso direito formal e burgues,
que na realidade e dessas tecnicas, que essas tecnicas da disciplina,
que esses       o direito da soberania? E eu creio que nos encontramos
aqui discursos nascidos da disciplina invadam 0 direito, que os
numa especie de ponto de estrangulamento, que nao pode- procedimentos da
normaliza,ao colonizem cada vez mais              mos continuar a fazer
que funcione indefinidamente dessa os procedimentos da lei, e isso, acho
eu, que pode explicar        maneira: nao e recorrendo a soberania
contra a disciplina que o funcionamento global daquilo que eu chamaria
uma "so-            poderemos limitar os proprios efeitos do poder
disciplinar. ciedade de normaliza,ao". De fato, soberania e disciplina,
legisla,ao, direito da      Quero dizer, mais precisamente, ista: eu
creio que a          soberania e mecanicas disciplinares sao duas pe,as
absolu- normaliza~ao, as normalizayoes disciplinares, vern cada vez
tamente constitutivas dos mecanismos gerais de poder em mais esbarrar
contra 0 sistema juridico da soberania; cada         nossa sociedade.
Para dizer a verdade, para lutar contra as dis- vez mais nitidamente
aparece a incompatibilidade de umas           ciplinas, ou melhor,
contra 0 poder disciplinar, na busca de com 0 outro; carla vez mais e
necessaria uma especie de dis-       urn poder nao disciplinar, nao e na
dire,ao do antigo direito curso arbitro, uma especie de poder e de saber
que sua sa-         da soberania que se deveria ir; seria antes na
dire9ao de urn craliza,ao cientifica tomaria neutros. E e precisamente
do
direito novo, que sena antidisciplinar, mas que estaria ao lado da
extensao da medicina que se ve de certo modo, nao
mesmo tempo liberto do principio da soberania. quero dizer cambinar-se,
mas reduzir-se, au intercambiar-
E e ai entao que nos aproximamos da no,ao de "repres- se, ou
enfrentar-se perpetuamente a mecanica da disciplina
sao" de que talvez lhes fale na proxima vez, a nao ser que e 0 principio
do direito. 0 desenvolvimento da medicina, a medicaliza,ao geral do
comportamento, das condutas, dos            eu esteja urn tanto farlo de
repisar coisas ja ditas e que pas- discursos, dos desejos, etc., se dao
na frente onde vern en-       se de imediato para outras coisas
referentes a guerra. Se eu contrar-se os dois len,ois heterogeneos da
disciplina e da         tiver desejo e coragem, eu lhes falarei da no,ao
de "repres- soberania. sao" que, creio eu, justamente, tern 0 duplo
inconveniente, no      E por isso que, contra as usurpa,oes da mecanica
dis-         uso que dela se faz, de se referir obscuramente a uma certa
ciplinar, contra essa ascensao de urn poder que e vinculado
teoria da soberania, que seria a teoria dos direitos soberanos ao saber
cientifico, nos nos encontramos atualmente numa           do individuo,
e de par em jogo, quando e utilizada, toda situa9ao tal que   0    Unico
recurso existente, aparentemente     uma referencia psicologica tirada
das ciencias humanas, ou solido, que temos      e precisamente 0 recurso
OU a volta a urn   seja, dos discursos e das praticas que dependem do
dominio 48                                EM DEFESA DA SOCIEDADE
disciplinar. Eu creio que a n09ao de "repressao" e tambem       AULA DE
21 DE JANEIRO DE 1976 urna n09ao juridico-disciplinar, seja qual for 0
uso critico que dela se pretende fazer; e, nessa medida, 0 uso critico
da no((ao de "repressao" se acha viciado, estragado, corrompi-
A teoria da soberania e as operadores de domina9iio. - do de inicio pela
dupla referencia, juridica e disciplinar, a             A guerra como
analisador das relafoes de pader. - Estrntura soberania e a normaliza9ao
que ela implica. Eu lhes falarei               binaria da sociedade. - a
discurso historico-politico, 0 dis- da repressao na pr6xima vez, senao
passarei para 0 proble-                curso da guerra perpefua. - A
dialetica e suas codificafoes. - ma da guerra. o discurso da luta das
ra9as e SUGS transcri90es.
Da ultima vez, foi uma especie de adeus a teoria da
soberania na medida em que ela pode, na medida em que
pOde se apresentar como metodo de analise das rela90es de
poder. Eu queria lhes mostrar que 0 modelo juridico da
soberania nao era, ereio eu, adaptado a uma amilise concre-
ta da multiplicidade das rela90es de poder. Parece-me, de
fato - resurnindo tudo isso em algumas palavras, tres pala-
vras exatamente -, que a teoria da soberania tenta necessa-
riamente constituir 0 que eu chamaria de urn cicIo, 0 cicio
do sujeito ao sujeito, mostrar como urn sujeito - entendido
como individuo dotado, naturalmente (ou por natureza), de
direitos, de capacidades, etc. - pode e deve se tornar sujei-
to, mas entendido desta vez como elemento sujeitado nurna
rela9ao de poder. A soberania e a teoria que vai do sujeito
para 0 sujeito, que estabelece a rela9ao politica do sujei-
to com 0 sujeito. Em segundo lugar, parece-me que a teoria
da soberania se confere, no inicio, urna multiplicidade de po-
deres que nao sao poderes no sentido politico do termo, mas
sao capacidades, possibilidades, potencias, e que ela s6 pode
constitui-los como poderes, no sentido politico do termo, 50
EM DEFESA DA SOCIEDADE        AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976
51  com a condi9ao de ter, entrementes, estabelecido, entre as       de
soberania. Mas isto nos teria levado a retomar a coisas ja
possibilidades e os poderes, urn momenta de unidade fun-         ditas;
entao sigo em frente, admitindo a possibilidade de, no  damental e
fundadora, que e a unidade do poder. Que essa         fmal do ano,
voltar a esse ponto, se sobrar tempo.  unidade do poder assurna a
fisionomia do monarca ou a for-             o projeto geral, 0 dos anos
anteriores e 0 deste ano, .0  ma do Estado pouco importa; e dessa
unidade do poder que         tentar desamarrar ou livrar essa analise do
poder dessa tri-  vao derivar as diferentes formas, os aspectos,
mecanismos e      plice preliminar - do sujeito, da unidade e da lei - e
ressal-  institui90es de poder. A multiplicidade dos poderes, enten-
tar, em vez desse elemento fundamental da soberania, aquilo  didos como
poderes politicos, so pode ser estabelecida e so      que eu denominaria
as rela90es e os operadores de domina-  pode funcionar a partir dessa
unidade do poder, fundamen-        9ao. Em vez de fazer os poderes
derivarem da soberania, se  tada pela teoria da soberania. Enfim, em
terceiro lugar, pa-     trataria fiuito mais de extrair, hist6rica e
empiricamente,  rece-me que a teoria da soberania mostra, tenta mostrar,
das rela90es de poder, os operadores de domina9ao. Teoria da  como urn
poder pode constituir-se nao exatamente segundo         domina9ao, das
domina90es, muito mais do que teoria da so-  a lei, mas segundo uma
certa legitimidade fundamental,           berania, 0 que quer dizer: em
vez de partir do sujeito (ou mais fundamental do que todas as leis, que
.0 urn tipo de lei     mesmo dos sujeitos) e desses elementos que seriam
preli- geral de todas as leis e pode permitir as diferentes leis fun-
minares a rela9ao e que poderiamos localizar, se trataria de cionarem
como leis. Em outras palavras, a teoria da sobera-       partir da
propria rela9ao de poder, da rela9ao de domina9ao nia .0 0 ciclo do
sujeito ao sujeito, 0 cicIo do poder e dos      no que ela tern de
factual, de efetivo, e de ver como e essa poderes, 0 cicio da
legitimidade e da lei. Digamos que, de        propria rela9ao que
determina os elementos sobre os quais uma maneira au de autra - e
conforme, evidentemente, as           ela incide. Portanto, nao
perguntar aos sujeitos como, por diferentes esquemas teoricos nos quais
ela se desenvolve -,       que, em nome de que direito eles podem
aceitar deixar-se a teoria da soberania pressupoe 0 sujeito: ela visa
funda-        sujeitar, mas mostrar como sao as rela90es de sujei9ao
efe- mentar a unidade essencial do poder e se desenvolve sem-
tivas que fabricam sujeitos. Em segundo lugar, tratar-se-ia pre no
elemento preliminar da lei. Triplice "primitivismo",       de ressaltar
as rela90es de domina9ao e de deixa-las valer pois: 0 do sujeito que
deve ser sujeitado, 0 da unidade do        em sua multiplicidade, em sua
diferen9a, em sua especifici- poder que deve ser fundamentada e 0 da
legitimidade que           dade ou em sua reversibilidade: nao procurar,
por conse- deve ser respeitada. Sujeito, unidade do poder e lei: ai
estao,   guinte, uma especie de soberania fonte dos poderes; ao con-
creio eu, os elementos entre os quais atua a teoria da sobe-
trario, mostrar como os diferentes operadores de domina9ao rania que, a
urn so tempo, os confere a si e procura funda-       se ap6iam uns nos
outros, remetem uns aos outros, em certo menta-los. Meu projeto - mas eu
0 abandono logo em se-            nlimero de casas se fortalecem e
convergem, noutros casas se guida - era mostrar a voces como esse
instrumento que a           negam ou tendem a anular-se. En nao quero
dizer, e claro, anitlise politico-psicologica se proporcionou ha tres ou
qua-     que nao ha, ou que nao se pode atingir nem descrever os tro
s.oculos, ja, ou seja, a n09ao de repressao - que mais pa-    grandes
aparelhos do poder. Mas en creio que estes funcio- rece copiada do
freudismo ou do freudo-marxismo - se inse-        nam sempre sobre a
base desses dispositivos de domina9ao. ria de fato numa decifra9ao do
poder que se fazia em termos       Concretamente, podemos, eclaro,
descrever 0 aparelho esco- 52                                 EM DEFESA
DA SOC/EDADE         AULA DE 2/ DE JANEIRO DE /976
53 lar ou 0 conjunto dos aparelhos de aprendizagem em dada
operadores de domina,iio, que devemos estudar, pois bern, sociedade, mas
eu creio que s6 podemos analisa-Ios eficaz-        como se pode avan,ar
nesse caminho das rela,oes de domi- mente se niio os tomarmos como urna
unidade global, se            na,iio? Em que urna rela,iio de domina,iio
pode se resumir it niio tentarmos deriva-los diretamente de algurna
coisa que        no,iio de rela,iio de for,a ou coincidir com ela? Em
que e seria a unidade estatal de soberania, mas se tentarmos ver
como a rela,ao de for,a pode se resurnir a uma rela,ao de como atuam,
como se ap6iam, como esse aparelho define             guerra? certo
n1\mero de estrategias globais, a partir de urna multi-           Eis a
especie de questiio preliminar que eu gostaria de plicidade de sujei,oes
(a da crian,a ao adulto, da prole aos      focalizar urn pouquinho este
ano: a guerra pode valer efeti- pais, do ignorante ao erudito, do
aprendiz ao mestre, da          vamente como analise das rela,oes de
poder e como matriz familia Ii administra,ao publica, etc.). Sao todos
esses          das tecnicas de domina,ao? Voces me diriio que niio se
pode, mecanismos e todos esses aparelhos de domina,ao que
logo de saida, confundir rela,oes de for,a e rela,oes de guer-
constituem 0 pedestal efetivo do aparelho global constituido      ra. E
claro. Mas tomarei isso simplesmente como urn [caso] pelo aparelho
escolar. Portanto, se voces quiserem, encarar       extremo, na medida
em que a guerra pode passar por ponto as estruturas de poder como
estrategias globais que perpas-       de tensao maxima, pela nudez mesma
das rela,oes de for,a. sam e utilizam tMicas locais de domina,iio. A
rela,iio de poder sera em seu fundo urna rela,iio de en-       Enfim, em
terceiro lugar, ressaltar as rela,oes de domi-    frentamento, de luta
de morte, de guerra? Sob a paz, a ordem, na,iio muito mais do que a
fonte de soberania, quer dizer         a riqueza, a autoridade, sob a
ordem calma das subordina- isto: niio tentar segui-Ias naquilo que
constitui sua legitimi-   ,oes, sob 0 Estado, sob os aparelhos do
Estado, sob as leis, dade fundamental, mas tentar, ao contmno, procurar
os ins-        etc., devemos entender e redescobrir urna especie de
guerra trumentos tecnicos que permitem garanti-las. Portanto, para
primitiva e permanente? E esta questao que eu gostaria de resurnir e
para que a coisa fique, pelo menos provisoria-         formular logo de
saida, sem ignorar toda a serie das outras mente, nao encerrada mas
relativamente clara: em vez da           questiies que sera necessario
[formular] e que eu tentarei triplice preliminar da lei, da unidade e do
sujeito - que faz     abordar nos anos seguintes, e dentre as quais
podemos sim- da soberania a fonte do poder e 0 fundamento das institui-
plesmente citar, a titulo de primeira referencia, as seguintes: ,oes -,
eu acho que temos de adotar 0 ponto de vista triplice     o fato da
guerra pode e deve ser efetivamente considerado das tecnicas, da
heterogeneidade das tecnicas e de seus efei-     primeiro em compara,ao
a outras rela,oes (as rela,oes de tos de sujei,iio, que fazem dos
procedimentos de domina-          desigualdade, as dissimetrias, as
divisoes de trabalho, as re- ,ao a trama efetiva das rela,oes de poder e
dos grandes apa-      la,oes de explora,iio, etc.)? as fen6menos de
antagonismo, relhos de poder. A fabrica,ao dos sujeitos muito mais do
que      de rivalidade, de enfrentamento, de luta entre individuos, ou a
genese do soberano: ai esta 0 tema gera!. Mas, se esta bern     entre
grupos, ou entre classes, podem e devem ser agrupa- claro que as
rela,oes de domina,iio e que devem ser 0 cami-       dos nesse mecanismo
geral, nessa forma geral que e a guerra? nho de acesso Ii analise do
poder, como se pode realizar es-      E ainda: as no,oes que sao
derivadas daquilo que se deno- sa analise das rela,oes de domina,iio? Se
e verdade que e a       minava no seculo XVIII, e ainda no seculo XIX, a
arte da domina,iio, e niio a soberania, ou melhor, as domina,oes, os
guerra (a estrategia, a tMica, etc.) podem constituir em si 54
EM DEFESA DA SOCIEDADE       AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976
55 mesmas um instrurnento valida e suficiente para analisar as     por
outros meios era urn principio bem anterior a Clause- rela,oes de poder?
Poderiamos perguntar-nos, sera preciso       witz, que simplesmente
inverteu uma especie de tese a urn perguntar-nos tambem: as institui,oes
militares e as prati-     so tempo difusa e precisa que circulava desde
os seculos cas que as cercam - e, de um modo geral, todos os procedi-
XVII e XVIII. mentos que foram empregados para travar a guerra - sao, de
Portanto: a politica e a guerra continuada por outros perto ou de longe,
direta ou indiretamente, 0 nucleo das ins-   meios. H:i nessa tese - na
propria existencia dessa tese, pre- titui,oes politicas? Enfim, a
questao principal que eu gosta-   liminar a Clausewitz - urn tipo de
paradoxo historico. Com ria de estudar este ana seria esta: como, desde
quando e por    efeito, pode-se dizer, de modo esquemMico e urn pouco
gros- que se come,ou a perceber ou a imaginar que e a guerra que
seiro, que, com 0 crescimento, com 0 desenvolvimento dos funciona sob e
nas rela,oes de poder? Desde quando, como,       Estados, ao.longo de
toda a [dade Media e no limiar da epo- por que se imaginou que urna
especie de combate ininter-        ca moderna, viram-se as praticas e as
institui,oes de guerra rupto perturba a paz e que, finalmente, a ordem
civil - em      passarem por urna evolu,ao muito acentuada, muito
visivel, seu fundo, em sua essencia, em seus mecanismos essenciais
que se pode caracterizar assim: as praticas e as institui,Des - e uma
ordem de batalha? Quem imaginou que a ordem             de guerra de
inicio se concentraram cada vez mais nas IDaOS civil era urna ordem de
batalha? [...] Quem enxergou a guer-    de urn poder central; pouco a
pouco, sucedeu que, de fato e de ra como filigrana da paz; quem
procurou, no barulho da          direito, apenas os poderes estatais
podiam iniciar as guerras confusao da guerra, quem procurou na lama das
batalhas, 0       e manipular os instrumentos da guerra: estatiza,ao, em
con- principio de inteligibilidade da ordem, do Estado, de suas
sequencia, da guerra. Com isso, pelo fato dessa estatiza,ao,
institui,oes e de sua historia?
encontrou-se apagado do corpo social, da rela,ao de homem       13,
portanto, esta questao que eu you tentar seguir um    com homem, de
grupo com grupo, aquilo que se poderia pouco nas proximas aulas, e
talvez ate 0 fim deste ano. No      chamar de guerra cotidiana, aquela
que chamavam efetiva- fundo, poderiamos formular a questao de modo muito
sim-         mente de "guerra privada". Cada vez mais as guerras, as
ples, e de inicio foi assim que eu a formulei para mim mes-     praticas
de guerra, as institui,Des de guerra tendem a nao rna: "Quem, no fundo,
teve a ideia de inverter 0 principia de   rnais existir, de certo modo,
senao nas fronteiras, nos limi- Clausewitz, quem teve a ideia de dizer:
e bem possivel que      tes exteriores das grandes unidades estatais,
como uma rela- a guerra seja a politica praticada por outros meios, mas
a      ,ao de violencia efetiva ou amea,adora entre Estados. Mas,
propria politica nao sera a guerra travada por outros meios?"   pouco a
pouco, 0 corpo social inteiro ficou limpo dessas re- Ora, eu creio que 0
problema nao e tanto saber quem inver-      la,Des belicosas que 0
perpassavam integralmente durante 0 teu 0 principio de Clausewitz, mas
antes saber qual era 0       periodo medieval. principio que Clausewitz
inverteu, ou melhor, quem formu-             Enfim, com essa
estatiza,ao, pelo fato de que a guerra lou esse principio que Clausewitz
inverteu quando disse:        foi, de certo modo, urna prMica que ja nao
funcionava senao "Mas, afinal de contas, a guerra nao passa da politica
con-     nos limites exteriores do Estado, ela tendeu a se tornar urna
tinuada." Eu creio, de fato - e tentarei demonstra-Io -, que
atribui,ao profissional e tecnica de um aparelho militar cio- o
principio segundo 0 qual a politica e a guerra continuada     samente
definido e controlado. Foi, em linhas gerais, 0 apa-  56
EM DEFESA DA SOCIEDADE         AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976
57  recimento do exercito como institui9ao, que, no funda, naD
quia absoluta e administrativa. Discurso, pais, voces estao    existia
como tal na Idade Media. E somente na saida da Ida-      vendo,
imediatamente ambiguo, ji que de urn lado, na Ingla-   de Media que se
vii emergir urn Estado dotado de institui-        terra, ele foi urn dos
instrumentos de luta, de poliimica e de   y6es militares que vieram Se
substituir a prMica cotidiana,       organizayao politica dos grupos
politicos burgueses, peque-   global da guerra, e a uma sociedade eterna
perpassada per         no-burgueses e eventualmente mesmo populares,
contra a   rela y6es guerreiras. A essa evoluyao, teremos de voltar; mas
monarquia absoluta. Ele foi tambem urn discurso aristocri-   eu acho que
podemos admiti-la ao menos a titulo de primei-        tico contra essa
mesma monarquia. Discurso cujos titulares   ra hip6tese hist6rica.
tiveram nomes em geral obscuros e, ao mesmo tempo, hete-         Ora,
onde esta 0 paradoxo? 0 paradoxo surge no mo-          rogeneos, ji que
encontramos na Inglaterra homens como   mento mesmo dessa transformayao
(ou talvez logo depois). Edward Coke' ou John Lilburne', representantes
dos movi-   Quando a guerra se viu expulsa para os limites do Estado,
mentos populares; na Franya, encontramos igualmente nomes   ao mesmo
tempo centralizada em sua pratica e recuada para         como 0 de
Boulainvilliers3, de Frere!" ou daquele fidalgo do   a sua fronteira,
eis que apareceu urn certo discurso: urn dis-    Maciyo Central que se
chamava conde d'Estaing s. Ele foi   curso estranho, urn discurso novo.
Novo, sobretudo, porque        retomado depois por Sieyes6 , mas
igualmente por Buonar-   creio que e 0 primeiro discurso
hist6rico-politico sobre a   sociedade, e que foi muito diferente do
discurso filos6fico-
1. As obras fundamentais de E. Coke sao: A Book ofEntries, Londres,
juridico que se costumava fazer ate entao. E esse discurso
1614; Commentaries on Littleton, Londres, 1628; A treatise of Bail and
hist6rico-politico que aparece nesse momento e, ao mesmo
Mainprize, Londres, 1635; Institutes ofthe Laws ofEngland, Londres, I,
1628;  tempo, urn discurso sobre a guerra entendida como relayao
II, 1642; III-IV, 1644; Reports, Londres, I-XI, 1600-1615; XII, 1656;
XIII,  social permanente, como fundamento indelevel de todas as
1659. Sabre Coke, cf. infra, aula de 4 de fevereiro.  rela y6es e de
todas as instituiy6es de poder. Equal e a data de          2. Sabre 1.
Lilbume, cf. ibid.
3. Sabre H. de Boulainvilliers, cf. infra, aula de II, 18 e 25 de
fevereiro.  nascimento desse discurso historico-politico sobre a guerra
4. A maioria das obras de N. Freret sao inicialmente publicadas nas Me-
como fundamento das relay6es sociais? De uma forma sin-
moires de / 'Academie des Sciences. Serna depois reunidas em suas
tEuvres  tomMica ele aparece, creio eu - you tentar mostrar-lhes isso-
completes, Paris, 1796-1799,20 vol. Ver, entre outras: De l'origine des
Franfais depois do fim das guerras civis e religiosas do seculo XVI:
et de leur etablissement dans la Gaule (t. V); Recherches historiques
sur les Nao e, portanto, de modo algum, como registro OU analise
mceurs et le gouvernement des Franfais, dans les divers temps de la
monar-
chie (t. VI); Reflexions sur ['etude des anciennes histoires et sur Ie
degre de das guerras civis do seculo XVI que aparece esse discurso.
certitude de leurs preuves (t. VI); Vues generales sur I'origine et sur
Ie melan- Em compensayao, ele ji esti, se nao constituido, pelo menos
ge des anciennes nations et sur la maniere d'en etudier /'histoire (t.
XVIII); claramente formulado no inicio das grandes lutas politicas
Observations sur les Merovingiens (t. XX). Sobre Freret, cf. infra, aula
de 18 inglesas do seculo XVII, no momento da revoluyao burgue-
de fevereiro. sa inglesa. E n6s 0 veremos aparecer em seguida na Franya,
5. Joachim, conde d'Estaing, Dissertation sur la noblesse d'extraction
et sur /es origines des fiefs, des surnoms et des armoiries, Paris,
1690. no fim do seculo XVII, no fim do reinado de Luis XlV, nou-
6. Michel Foucault se ap6ia essencialmente, em sua aula de 10 de mar-
tras lutas politicas - digamos, as lutas de retaguarda da aristo-   l;O
(infra), na obra de E.-J. Sieyes, Qu 'est-ce que Ie Tiers-Etat?, s.l.,
1789 (ver cracia francesa contra 0 estabelecimento da grande monar-
as reedil;oes desse texto: Paris, PDF, 1982, e Flammarion, 1988). 58
EM DEFESA DA SOCIEDADE                 AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976
59 roti', Augustin ThierryS ou Courtet9 . E, por fim, voces vao
os famosos inocentes que agonizam no dia que esta ama- encontni-lo entre
os biologos racistas e eugenistas, etc., do
nhecendo. fim do seculo XIX. Discurso sofisticado, discurso cientifico,
Mas isto nao quer dizer que a sociedade, a lei e 0 Es- discurso erudito,
feito por pessoas com olhos e com dedos                             tado
sejam como que 0 armisticio nessas guerras, ou a san- empoeirados, mas,
igualmente, discurso - voces verao - que                            9ao
definitiva das vitorias. A lei nao e pacifica9ao, pois, sob teve
certamente urn numero imenso de locutores populares
a lei, a guerra continua a fazer estragos no interior de todos e
anonimos. Esse discurso, 0 que e que ele diz? Pois bern,
os mecanismos de poder, mesmo os mais regulares. A guer- eu creio que
diz isto: contrariamente ao que diz a teoria fi-
ra e que e 0 motor das institui90es e da ordem: a paz, na
10sOfico-juridica, 0 poder politico nao come9a quando cessa
menor de suas engrenagens, faz surdamente a guerra. Em a guerra. A
organiza9ao, a estrutura juridica do poder, dos
outras palavras, cumpre decifrar a guerra sob a paz: a guer- Estados,
das monarquias, das sociedades, nao tern seu prin-
ra e a cifra mesma da paz. Portanto, estamos em guerra uns cipio no
ponto em que cessa 0 ruido das armas. A guerra
contra os outros; uma frente de batalha perpassa a socieda- nao e
conjurada. No inicio, claro, a guerra presidiu ao nas-
de inteira, continua e permanentemente, e e essa frente de cimento dos
Estados: 0 direito, a paz, as leis nasceram no
batalha que coloca cada urn de nos num campo ou no outro. sangue e na
lama das batalhas. Mas com isso nao se deve
Nao hi sujeito neutro. Somos for90samente adversanos de entender
batalhas ideais, rivalidades tais como as imaginam
alguem. os filosofos ou os juristas: nao se trata de uma especie de
Uma estrutura binana perpassa a sociedade. E voces selvageria teorica. A
lei nao nasce da natureza, junto das                            veem
aparecer ai algo a que eu tentarei voltar e que e muito fontes
freqiientadas pelos primeiros pastores; a lei nasce
importante. A grande descri9ao piramidal que a Idade Media das batalhas
reais, das vitorias, dos massacres, das conquis-
ou as teorias filosOfico-politicas faziam do corpo social, a tas que
tern sua data e seu herois de horror; a lei nasce das
grande imagem do organismo ou do corpo hurnano que cidades incendiadas,
das terras devastadas; ela nasce com                             Hobbes
apresentara, ou ainda il organiza9ao ternaria (em
tres ordens) que vale para a Fran9a (e ate certo ponto para
certo numero de paises da Europa) e que continuara a arti-        7. Cf.
F. Buonarroti, Conspiration pour I'egalite. dUe de Babeuf, suivie du
cular certo nfunero de discursos e, em todo caso, a maioria praces
auquel elie donna lieu et des piecesjustificatives, Bruxelas, 1828,2
vol. das institui90es, opoe-se - MO, exatamente, pela primeira vez,
8. As obras hist6ricas de A. Thierry a que M. Foucault se refere, sobre-
mas pela primeira vez com urna articula91io historica preci- tudo na
aula de 10 de mania (infra), sao as seguintes: Vues des revolutions
d'Angleterre, Paris, 1817; Histoire de fa conqU/?te de !'Angleterre par
les Nor-
sa - urna concep9ao binaria da sociedade. Ha dois grupos, mands, de ses
causes et de ses suitesjusqu 'd nosjours, Paris, 1825; Lettres sur
duas categorias de individuos, dois exercitos em confronto. l'histoire
de France pour servir d'introduction      a   l'i?tude de cette histoire
E, sob os esquecimentos, as ilusoes, as mentiras que tenta- Paris, 1827;
Dix ans d'etudes historiques, Paris, 1834; Recits des temps mero~
yam fazer-nos acreditar, justamente, que hi urna ordem ter- vingiens,
prticedes de Considerations sur ['histoire de France, Paris, 1840; Essai
naria, urna piriimide de subordina90es ou urn organismo, sob sur
l'histoire de la/ormation et des progres du Tiers.Etat, Paris, 1853.
9. De A. V. Courtet de l'Is1e, cf. sobretudo La science politiquefondee
sur     essas mentiras que tentavam fazer-nos acreditar que 0 corpo fa
science de l'homme, Paris, 1837. social e comandado seja por
necessidades de natureza, seja 60                                  EM
DEFESA DA SOCIEDADE
r   AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976
61 por exigencias funcionais, temos de redescobrir a guerra que
gada numa historia e descentralizado em rela , 10111 610~_1176
E_II,odm(r'''''''''''''''''.
